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sábado, 11 de agosto de 2007

Em defesa de Luísa...

Sabe... Hoje, eu assisti ao filme “O Primo Basílio”, de Daniel filho, baseado no romance, publicado pela primeira vez em 1878, de Eça de Queirós. O roteiro é adaptado por Euclydes Marinho, que ambientaliza a história de Eça - mantendo sua essência para a alegria dos leitores - para São Paulo dos anos 50. A questão é: vi o filme e fiquei muito pensativo.
Sabemos que a pena de Eça de Queirós foi muito violenta para época, que ele quis enfocar um lar burguês e assim criticá-lo, blá, blá, blá. Tirando as meras opiniões literárias, eu prefiro realizar uma que talvez seja a mais literária possível. Ela se chama “Ode à Luísa”.
Pode parecer estranho em um primeiro momento, pois até onde me consta, algumas pessoas, e, em segredo, alguns críticos, lêem a personagem de Eça somente como a mulher romântica, inconseqüente, ingênua, adúltera e arrependida. Mas, eu não a leio assim e direi ao meu caro leitor o porquê.
Se Luísa fosse o centro de um campo semântico tão frágil e a relação com Jorge tão perfeita, o lar doce lar dela e de Jorge (desculpe a ironia) não se desfaria com a simples morte de sua patroa. Mas por que o lar simplesmente se desfaz? Será que é somente por que uma família (se um dia houve alguma...) se desconfigurou? Definitivamente, não!
Para mim, assim como eu acho que para o Eça (desculpe a ousadia), Luísa é a vida deste romance. O que é ser infiel? É a atitude somente de trair o outro? Mas e se trair o outro for justificado pelo desejo? E se simplesmente a reposta de tudo isso for “eu quis”? Será que seremos condenados por isso?
Muitas pessoas cometem atos. Outras, pensamentos. Outras, contudo, omissões. No fim, tudo pode ser traição. Trair, para mim, significa todo aquele curso que se segue por vias diferente do nosso desejo, daquilo que sentimos. Assim eu sou capaz de trair alguém que namoro, um amigo, e/ou a mim mesmo. Contudo, a traição mais grave para mim é “trair-se”, pois adquire um caráter muito estranho. Como eu não sou capaz de fazer bem a mim mesmo? Ah, sim, a sociedade... blá, blá, a moral, blá, blá, os outros, blá, blá, as conseqüências.
Sim, claro. A vida é feita de conseqüências. Assim como os romances têm finais. Mas o que eu digo é outra coisa. Se pensarmos direitinho, Luísa não traiu ninguém pra começo de conversa. Jorge (até onde me consta) no inicio do livro é um bom marido, mas não um bom amante. Então para ser traído, Jorge deveria ser um bom amante também, coisa que não é. Luísa não se trai, pois ela concretiza o seu desejo por Basílio. Então por que os dedos se voltam contra ela?
A verdade é que todos os dedos se decaem sobre Luísa, pois muitos (mulheres, homens, gays... todos), sabem que no lugar dela talvez fizessem o mesmo. Se não concretizassem o ato (embora não veja nada tão condenatório assim), trairiam por pensamentos, por palavras. Para tudo isso basta uma simples ausência de desejo, carinho, amor ou outra coisa. Se não existisse o desejo da traição, ótimo para alguns. Mas cuidado! Se o tal desejo existisse e não cometessem o ato (ah sim o ato), talvez traíssem a si mesmas.
Luísa foi corajosa e disse “Sim”. Disse “sim” ao amor que se mistura com desejo, sedução e que se acha (ou se perde para alguns) no sexo. Disse “sim” ao seu grande amor do passado (embora alguns leitores esqueçam disso em suas interpretações) e não a qualquer um homem (embora também pudesse dizê-lo). Luísa sintetiza, para mim, tudo aquilo que queremos ser e não “somos” por questões morais.
Talvez seja por isso que a pena de Eça seja tão cruel e prefira matar Luísa ao final do romance. Seria muito trágico mantê-la viva. As pessoas se chocariam ao olhá-la viva e dizer “talvez eu tivesse feito a mesma coisa”, e assim a preferem morta, pois, bem mortinha, elas podem tocar as suas vidas e permanecerem com seu lindo discurso de “eu sou perfeito” – não que Luísa tenha errado, pois realmente acho que ela não errou - e assim possam, sobretudo, direcionar o seu dedo à Luísa e julgá-la.
Ah, já ia esquecendo do “lar”. Para mim, o lar se desfaz, pois a “praticidade” de Jorge se destrói. Jorge é, para mim, a simbologia da “perfeição” humana, por isso, é que ele se torna tão chato. Luísa é aquilo que dá vida, inclusive a Jorge. Defino então assim: Luisa é a janela que se abre, Jorge é o pino que tenta fechá-la, e Basílio o ventinho que faz barulho para entrar.
O mestre Renato Russo já dizia “venha que o que vem é perfeição”. Luísa, para mim, é a verdade que liberta. É o amor que se abre e deixa chegar a primavera. É o desejo que se sacia no espaço da luz entre a noite e o dia. É Eros e Thanatos. É a celebração do preconceito, da afetação, e, sobretudo, da incompreensão.
Pobre da Luísa. Morre. O livro termina. As janelas se fecham. Jorge reconhece sua ausência, perfeição e mediocridade, perdoa Luísa e se cala. Todos as pessoas ficam felizes e permanecem julgando-a por toda eternidade, enquanto Eça, no seu túmulo (que Deus o tenha), deve ficar dando gargalhadas de alegria, dizendo “Eu não achei que a sociedade fosse tão hipócrita”, e, em outro túmulo, porém não muito distante dali, Renato Russo deve ficar repetindo exaustivamente para Eça “vamos celebrar a estupidez humana”. Fim.

domingo, 22 de julho de 2007

Os clássicos...

Sempre que algo acontece na vida da minha mãe, ela coloca Barbra Streisand para tocar. Minha ouve o mesmo disco de vinil - The Essential Barbra Streisand - desde que sou pequeno.
Ele serve para tudo. Alegrias, tristezas, decepções.
Um dia desses, eu perguntei-lhe o motivo pelo qual ela sempre punha o mesmo disco nestas situações. Ela não me respondeu. Mas, sem que eu precisasse de qualquer explicação, entendi. Ouvir Barbra para minha mãe é relembrar um tempo e renovar suas memórias e forças, não importando a razão que as fizeram enfraquecer.
Porém, uma pergunta me instiga. Será que teremos os nossos clássicos? Ou será que nós seremos obrigados a usar os clássicos de outra geração, anterior a nossa. A minha geração ouve “potranca”, dança funk., pagode, axé.
Nada contra, mas será que tudo isto se convertá em clássico no futuro? Será que outros cantores, cantoras conseguirão imprimir suas identidades a ponto de permanecerem como 'clássicos'? Ou será que o lugar dos clássicos está garantido a eles para toda a eternidade?
Uma coisa é certa. Ser clássico é exprimir qualidades dentro de um diagrama de simplicidade. Por isso, é certos nomes do passado nunca somem. Eles verdadeiramente são simples mas expressam uma grande qualidade sentimental que é capaz de marcar uma geração. A geração de minha mãe, gostem ou não, é marcada por Barba, Barry White, Joe Cocker, Jovem Guarda, Gal Costa, Fafá de Belém, entre outros.
Talvez, por isso, não seja tão extranho assim Barbra tornar-se a única voz amiga que minha mãe deseja ouvir em momentos como estes. Barbra leva-lhe para um outro tempo, uma outra idade, um outro momento. É distanciar-se do presente e ir a um lugar vivido ou sonhado somente por minha mãe.
Posso dizer assim que é o poder de um clássico que lhe toca o coração, e assim Barbra - poderosa, por que não?; permanece como o seu maior segredo. No futuro quem serão as Barbras de nossa geração? Quem guardará os nossos segredos?
Refletir sobre o que andamos ouvindo pode ser um bom começo. Talvez, neste caminho, possamos conhecer outros nomes, estilos de músicas. Nesta hora, humildade faz a diferença. E o novo torna-se um lugar repleto de lacunas para preenchermos. Porém, nunca esqueça que grandes músicas guardam grandes segredos e momentos...

Até mais pessoal...