Sabe... Hoje, eu assisti ao filme “O Primo Basílio”, de Daniel filho, baseado no romance, publicado pela primeira vez em 1878, de Eça de Queirós. O roteiro é adaptado por Euclydes Marinho, que ambientaliza a história de Eça - mantendo sua essência para a alegria dos leitores - para São Paulo dos anos 50. A questão é: vi o filme e fiquei muito pensativo.Sabemos que a pena de Eça de Queirós foi muito violenta para época, que ele quis enfocar um lar burguês e assim criticá-lo, blá, blá, blá. Tirando as meras opiniões literárias, eu prefiro realizar uma que talvez seja a mais literária possível. Ela se chama “Ode à Luísa”.
Pode parecer estranho em um primeiro momento, pois até onde me consta, algumas pessoas, e, em segredo, alguns críticos, lêem a personagem de Eça somente como a mulher romântica, inconseqüente, ingênua, adúltera e arrependida. Mas, eu não a leio assim e direi ao meu caro leitor o porquê.
Se Luísa fosse o centro de um campo semântico tão frágil e a relação com Jorge tão perfeita, o lar doce lar dela e de Jorge (desculpe a ironia) não se desfaria com a simples morte de sua patroa. Mas por que o lar simplesmente se desfaz? Será que é somente por que uma família (se um dia houve alguma...) se desconfigurou? Definitivamente, não!
Para mim, assim como eu acho que para o Eça (desculpe a ousadia), Luísa é a vida deste romance. O que é ser infiel? É a atitude somente de trair o outro? Mas e se trair o outro for justificado pelo desejo? E se simplesmente a reposta de tudo isso for “eu quis”? Será que seremos condenados por isso?
Muitas pessoas cometem atos. Outras, pensamentos. Outras, contudo, omissões. No fim, tudo pode ser traição. Trair, para mim, significa todo aquele curso que se segue por vias diferente do nosso desejo, daquilo que sentimos. Assim eu sou capaz de trair alguém que namoro, um amigo, e/ou a mim mesmo. Contudo, a traição mais grave para mim é “trair-se”, pois adquire um caráter muito estranho. Como eu não sou capaz de fazer bem a mim mesmo? Ah, sim, a sociedade... blá, blá, a moral, blá, blá, os outros, blá, blá, as conseqüências.
Sim, claro. A vida é feita de conseqüências. Assim como os romances têm finais. Mas o que eu digo é outra coisa. Se pensarmos direitinho, Luísa não traiu ninguém pra começo de conversa. Jorge (até onde me consta) no inicio do livro é um bom marido, mas não um bom amante. Então para ser traído, Jorge deveria ser um bom amante também, coisa que não é. Luísa não se trai, pois ela concretiza o seu desejo por Basílio. Então por que os dedos se voltam contra ela?
A verdade é que todos os dedos se decaem sobre Luísa, pois muitos (mulheres, homens, gays... todos), sabem que no lugar dela talvez fizessem o mesmo. Se não concretizassem o ato (embora não veja nada tão condenatório assim), trairiam por pensamentos, por palavras. Para tudo isso basta uma simples ausência de desejo, carinho, amor ou outra coisa. Se não existisse o desejo da traição, ótimo para alguns. Mas cuidado! Se o tal desejo existisse e não cometessem o ato (ah sim o ato), talvez traíssem a si mesmas.
Luísa foi corajosa e disse “Sim”. Disse “sim” ao amor que se mistura com desejo, sedução e que se acha (ou se perde para alguns) no sexo. Disse “sim” ao seu grande amor do passado (embora alguns leitores esqueçam disso em suas interpretações) e não a qualquer um homem (embora também pudesse dizê-lo). Luísa sintetiza, para mim, tudo aquilo que queremos ser e não “somos” por questões morais.
Talvez seja por isso que a pena de Eça seja tão cruel e prefira matar Luísa ao final do romance. Seria muito trágico mantê-la viva. As pessoas se chocariam ao olhá-la viva e dizer “talvez eu tivesse feito a mesma coisa”, e assim a preferem morta, pois, bem mortinha, elas podem tocar as suas vidas e permanecerem com seu lindo discurso de “eu sou perfeito” – não que Luísa tenha errado, pois realmente acho que ela não errou - e assim possam, sobretudo, direcionar o seu dedo à Luísa e julgá-la.
Ah, já ia esquecendo do “lar”. Para mim, o lar se desfaz, pois a “praticidade” de Jorge se destrói. Jorge é, para mim, a simbologia da “perfeição” humana, por isso, é que ele se torna tão chato. Luísa é aquilo que dá vida, inclusive a Jorge. Defino então assim: Luisa é a janela que se abre, Jorge é o pino que tenta fechá-la, e Basílio o ventinho que faz barulho para entrar.
O mestre Renato Russo já dizia “venha que o que vem é perfeição”. Luísa, para mim, é a verdade que liberta. É o amor que se abre e deixa chegar a primavera. É o desejo que se sacia no espaço da luz entre a noite e o dia. É Eros e Thanatos. É a celebração do preconceito, da afetação, e, sobretudo, da incompreensão.
Pobre da Luísa. Morre. O livro termina. As janelas se fecham. Jorge reconhece sua ausência, perfeição e mediocridade, perdoa Luísa e se cala. Todos as pessoas ficam felizes e permanecem julgando-a por toda eternidade, enquanto Eça, no seu túmulo (que Deus o tenha), deve ficar dando gargalhadas de alegria, dizendo “Eu não achei que a sociedade fosse tão hipócrita”, e, em outro túmulo, porém não muito distante dali, Renato Russo deve ficar repetindo exaustivamente para Eça “vamos celebrar a estupidez humana”. Fim.